ANTENA PARANÓICA

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FÁBULA

Para domesticar os homens
leia o texto e assista o vídeo depois

Texto de Nonato Albuquerque

No reino dos bichos, um passarinho me contou que os animais realizaram uma grande assembléia. Todos foram convocados para esse encontro no centro da grande floresta. Do mosquito ao elefante, da jararaca mais rasteira ao bicho de pena mais veloz dos ares, todos acorreram ao grande chamamento.

Depois que a sábia coruja pôs ordem na ensurdecedora algazarra dos presentes, soube-se o real motivo daquele encontro. Os animais estão demasiadamente preocupados com o futuro do bicho-homem. E ao contrário do que se possa imagnar, não é com a ação humana em relação aos que, insuspeitavelmente, chamamos de irracionais. Os bichos temem que o homem se destrua por si só.

Depois de anos e anos empenhados em caçar os animais em suas reservas naturais e expulsá-los para mais distante de seu ‘habitat’, parecia que o homem mudara mais os conceitos em relação ao trato de seus irmãos na escala animal. É bem verdade que ainda os agredia, torturava, escravizava e, claro, dizimava-os para continuar sendo. “O homem ainda sobrevive dos nossos mortos”, argumentava a dirigente da assembléia.

Nenhum dos presentes, esquecera que o homem ainda os buscavam para o enjaulamento e para a morte, mas nos últimos tempos, eles desviaram o alvo da caça aos bichos, contentando-se em abater o seu próprio semelhante. “O homem, afinal, se tornou o verdadeiro lobo do homem como já prenunciara um membro deles”.

Ele já não importunava as manadas de elefantes nas savanas africanas. Perdera o interesse por engaiolar passarinhos só para ter o canto deles. Desistira, através de decretos, de criar os da espécie em extinção e, entre os seres humanos, tornara-se politicamente incorreta a atitude fuzilar animais nas pradarias pelo simples gosto de praticar tiro ao alvo. “Até deixaram de caçar as nossas irmãs baleias para azeitar as suas lanternas”, lembrou bem um presente.

– Claro, o homem amadureceu, gente! – piou, ainda mais convencida, a coruja no alto de um carvalho centenário, preservado a partir da conscientização humana de que as árvores fazem parte do ecosistema vital à sobrevivência de todos no planeta.

Foi o bastante para que a assembléia se dividisse. Uns em apoio a essa tese, embora a representante das pulgas, escondidinha atrás de uma orelha animal, desconfiasse da manobra dos ditos racionais. Por sua vez, haviam os que se mostravam contrários, receiosos de que estaria ocorrendo apenas uma trégua. Poucos, certificavam-se de que a matança dos homens entre si, resultaria de alguma forma em prejuízo para o planeta e, por tabela, ao reino animal.

“É preciso fazer alguma coisa, em benefício… do homem”, ladrou o representante dos cães. “Se os homens se matam, como é que a gente vai ter casa, comida e veterinária de graça?”, completou.

– Protesto! Numa assembléia como essa não se deve votar em causa própria – repeliu o leopardo, uma eterna vítima da sanha humana.

– Concordo com o companheiro leopardo – baliu timidamente uma gazela, esquecendo as rivalidades animais.

– Desde o início dos tempos, que eles têm se utilizado de nosso trabalho, de nossa pele, de nossa própria carne…”, mugiu o representante do gado-vacum.

– Apoiado! relinchou o jumento, argumentando a questão da escravidão a que muitos foram submetidos pelo homem desde que o Criador de todos os bichos os expulsara do paraiso. “Por causa do homem”, sibilou a serpente, esquecendo-se de que ela própria fora personagem nessa estória mal interpretada.

Ao final de muitas discussões, chegou-se a um consenso. Fora colocada em votação, a proposta inusitada de que os bichos deveriam urgentemente começar um trabalho de humanização do bicho-homem. Uma conscientização para que eles pudessem compartilhar realmente das maravilhas da Terra que pouquíssimos humanos conseguem entrevê-las.

Em outras palavras, foi aprovada a proposta para que os bichos domesticassem os homens. Quem sabe, assim, possam eles excluir do seu comportamento, o lado que dizem ser ‘animal” quando provocam qualquer ação que contrarie as regras do ser humano.

Moral da história: bicho que é bicho, não tem capricho; ajuda a qualquer bicho.

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