ANTENA PARANÓICA

lemos e descolamos o que há de melhor na rede

RELIGIÃO

Para se ler e pensar

Luciano de Samosata, por exemplo, denuncia em inúmeros diálogos como estava combalida a crença nos deuses olímpicos, um século antes de Cristo.
No “Júpiter-Trágico” esse Voltaire sírio tem lanços de humor que lembram Mark-Twain ou Bernardo Shaw.
Travara-se na terra, em presença de numerosa assembléia, uma disputa entre o estóico Tímocles e o epicurista Damis. O estóico defendia os deuses e Damis os negava.
A disputa correu animadíssima e acabou interrompendo-se no meio para ser decidida no dia seguinte. Como, entretanto, a assistência se retirasse inclinada para Damis, o Olimpo assustou-se e Jove amarrou o burro. Vem Juno e indaga da causa da divina zanga. Teria acaso a Terra partejado novos gigantes que, à imitação dos Titãs, pretendessem escalar o céu?
— Nada disso, coisa muito pior! diz Júpiter. Estão lá embaixo, os homens, travados numa disputa de cujo desfecho depende a estabilidade do Olimpo. Se sai vencedor Damis, ai de nós!…
O caso foi tido como dos mais sérios, e Jove resolveu convocar todos os deuses para que, “debruçados na amplidão”, acompanhassem os debates e “torcessem” pelo paladino da boa causa.
Assim se fez. Quando, porém, os dois disputantes novamente se enfrentaram, um arrepio de pressentimento perpassou, gélido, pela espinha de Júpiter.
— Tímocles parece-me trêmulo e perturbado. Vai estragar tudo. Já vi pela cara que não pode medir-se com Damis.
E os deuses, em desespero de causa, põem-se a rezar pela vitória do campeão…
Começa a disputa. Júpiter manda que as Horas arredem umas nuvens que lhe estão tapando a vista.
Trava-se o duelo de argumentos. Damis leva o outro à parede, “dá-lhe na cabeça”, como se diria hoje, e a assistência percebe que em poucos “rounds” estará Tímocles nocaute.
Em certo ponto o estóico puxa um argumento espadagão: o fato de serem deístas todos os povos. Damis responde com o antropomorfismo e toda a bicharia ou natureza deificada: no Egito o boi, na Assíria a pomba, na Etiópia o dia, na Pérsia a água, na Pelúsia a cebola, em outros países o gato, o íbis, o cinocéfalo, o crocodilo, etc.
O deus Momus dá um aparte inquieto:
— Eu não disse, Júpiter, que os homens ainda acabavam descobrindo isso?
Júpiter, jeitoso, sossega-o:
— Tens razão, mas havemos de dar um jeito no caso.
A causa dos deuses era positivamente insustentável depois do rapto de Ganimedes e outros escândalos olímpicos, e Tímocles, falto de argumentos, resolve fazer como os Tímocles de todas as épocas: insultar o contendor e apedrejá-lo. E atira-lhe em rosto um vocabulário muito nosso conhecido: infame, desenterrador de cadáveres, esterco imundo, filho das ervas, adúltero, “cocu”, monstro de impudicícia, etc.
Os deuses regozijam-se com a “derrota” de Damis; Júpiter, entretanto, cisma:
— É, mas eu preferia ter do meu lado um Damis a dez mil apedrejadores…

Trecho de ‘Krishnamurti’, de Monteiro Lobato
no livro ‘Na Ante-Véspera’

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