ANTENA PARANÓICA

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O POVO SEGUNDO EÇA DE QUEIROZ

Um texto antológico de Eça de Queiroz, que eu havia tomado conhecimento quando ainda adolescente. Hoje, o reencontro e faço questão de dividir com todos vocês. É brilhante.

O povo 
(Eça de Queiroz)

Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, e se lamentam em vão.
Estes homens são o Povo.
Estes homens, sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, e pelo frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua forca, para criar a pão, o alimento de todos.
Estes são o Povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes bomens são o Povo, e são os que nos vestem.
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o Povo, e são as que nos enriquecem.
Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, a neve, a chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem.
Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens, são os que nos servem.
E por isso que os que tem coração e alma, e amam a Justiça, devem lutar e combater pelo Povo.
E ainda que não sejam escutados, tem na amizade dele uma consolação suprema.

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Uma opinião sobre “O POVO SEGUNDO EÇA DE QUEIROZ

  1. Lenha Diógenes em disse:

    Reflexão lúcida e necessária, especialmente nos dias atuais em que se observa distintos discursos em nome do povo e para povo. Como diria uma grande jornalista: “ledo engano”. Um observador mais atento constata, sem muito esforço, que há tempos as atitudes não condizem com os discursos… Enquanto as bandeiras tremulam nos cruzamentos da cidade e o chão se enfeia de promessas e projetos que nunca serão executados, o povo morre nas filas dos hospitais, as crianças vagam pelas ruas “brincando de matar gente” no dizer de Paulo Freire e o País não consegue “ter seu povo alimentado” nem de pão, nem de cultura. Resta-nos a luta porque ” o tempo presente” é a nossa matéria, como nos ensina Carlos Drummond de Andrade.

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